Venezuela

Trump usa a cenoura e o pau para apoderar-se do petróleo venezuelano

26 de novembro 2025 - 11:26

Trump espera que Maduro fique tão desconcertado com o destacamento militar que perceba o inevitável e decida autoexilar-se para um país amigo, mas não há indícios de que ele esteja disposto a seguir essa opção.

por

Álvaro Verzi Rangel

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Caça levanta voo do porta-aviões USS Gerald R. Ford
Caça levanta voo do porta-aviões USS Gerald R. Ford, um dos enviados para as manobras militares dos EUA junto à Venezuela. Foto NATO

Quando as operações militares no mar do Caribe começaram em setembro, Trump negava ter qualquer interesse em provocar uma mudança de regime. Recentemente, numa entrevista no início de novembro à rede CBS, o tom era muito diferente. A jornalista Norah O'Donnell perguntou ao republicano: “Os dias de Maduro como presidente estão contados?”. E ele respondeu: “Eu diria que sim. Acho que sim, sim”.

Na manhã desta segunda-feira, a designação do Cartel dos Sóis como organização terrorista entrou em vigor, colocando o presidente venezuelano como seu líder, fazendo com que, de facto, Maduro seja considerado um terrorista pelos Estados Unidos. Trata-se de uma acusação que o governo da Venezuela negou repetidamente.

Há dez dias, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, anunciou o início de uma campanha militar contra o “narcoterrorismo” na América Latina, batizada de Lança do Sul. Segundo Hegseth, o objetivo é “expulsar os narcoterroristas do nosso hemisfério e proteger a nossa pátria das drogas que estão a matar o nosso povo”.

Não foram dados mais detalhes sobre o que consistia a operação Lança do Sul, além de que o Comando Sul — responsável pela área da América Central, Sul e Caribe — estaria envolvido. Em meados de outubro, o comandante do Comando Sul, o almirante da Marinha Alvin Holsey, anunciou que iria reformar-se após um ano no cargo e poucos dias após o quinto ataque a uma embarcação que partia da costa venezuelana.

Trump tem usado as designações de “terrorista” e “narcoterrorista” para ignorar o direito internacional e empreender ataques militares contra embarcações que acusava de serem barcos de narcotraficantes. Sob essa designação de  “narcoterroristas”, o Pentágono assassinou mais de 80 pessoas em suas incursões no mar do Caribe e no Pacífico Oriental. No entanto, os alvos eram pessoas anónimas — familiares de pescadores que não regressaram acreditam que são os seus entes queridos e negam que fossem narcotraficantes — e não um presidente.

As tensões aumentaram desde que o governo dos Estados Unidos reconheceu como vencedor das eleições presidenciais o candidato da oposição Edmundo González, que se apresentou no lugar de Marina Corina Machado, a candidata de Washington, que, paradoxalmente, recebeu este ano o Prémio Nobel da Paz.
Nesta segunda-feira, quatro altos funcionários norte-americanos confirmaram à agência de notícias Reuters que, nos “próximos dias”, Washington pretendia iniciar a segunda fase da operação militar contra a Venezuela.

Diante das pressões dos EUA, nas últimas horas, sete companhias aéreas decidiram suspender as suas operações com a Venezuela, entre elas a Iberia, que realiza cinco voos por semana. Esta medida surge depois de a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos ter emitido um aviso contra voos sobre a Venezuela e o sul do Mar do Caribe, devido a “uma possível situação de risco”.

O analista venezuelano Leopoldo Puchi assinala que, por um lado, Washington diz estar disposta a dialogar. Por outro, deixa em aberto a opção de uma intervenção militar. Mas esta mistura não é casual. Corresponde a uma prática histórica que consiste em dialogar colocando o bastão sobre a mesa.

”Trump declara estar disposto a dialogar, mantém o destacamento naval, ativa a operação “Lança do Sul” e ordena operações especiais da CIA. Não se trata de desordem, mas da atualização de um método antigo, que permite a Washington seguir dois caminhos simultâneos: negociar a partir de uma posição de força e justificar uma intervenção” acrescenta.

Atacar Maduro diretamente é pouco provável, e uma operação especial secreta também não se coadunaria com a exibição de força que Washington recentemente demonstrou na América Latina. O mais provável é que Trump tente provocar fraturas dentro do governo venezuelano e entre os militares, o que não conseguiu em vários anos. Trump espera que Maduro fique tão desconcertado com o destacamento militar que perceba o inevitável e decida autoexilar-se para um país amigo, mas não há indícios de que ele esteja disposto a seguir essa opção.

A outra esperança do governo dos EUA é que Maduro seja derrubado a partir de dentro das fileiras militares e que alguém reivindique a recompensa de 50 milhões de dólares pela sua cabeça. Alguns analistas especularam sobre um golpe cirúrgico contra Maduro, semelhante ao ataque com drones que Trump ordenou contra o general iraniano Qasem Soleimani em 2020, no seu primeiro mandato.

A imprensa nos EUA assinala que é muito difícil ver botas estadunidenses destacadas na Venezuela, mas um ataque aéreo não é improvável. Trump acumulou experiência neste mandato com o ataque contra os houthis no Iémen no início do ano e com o bombardeamento das instalações nucleares do Irão, uma operação que levou os Estados Unidos à beira de uma guerra regional, mas que no final serviu como ferramenta de pressão ao regime dos aiatolás, além de, supostamente, retomar as conversações sobre o programa nuclear.

Não se pode descartar que Trump ordene ataques militares seletivos contra instalações da Venezuela, tendo em conta o seu escasso interesse em negociar com a Venezuela e com o governo de Maduro e, sobretudo, os interesses dos EUA em apoderar-se do petróleo venezuelano.

No início do seu governo, Trump nomeou Richard Grenell, ex-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, para trabalhar nas relações com a Venezuela. A visão de Grenell era muito mais voltada para os negócios e, de facto, ele conseguiu um acordo para que a gigante petrolífera americana Chevron pudesse continuar a operar. Enquanto isso, o secretário de Estado cubano-americano Marco Rubio aposta numa linha dura contra o regime de Maduro.

Grenell foi afastado do cargo e transferido para a direção do Kennedy Center. O endurecimento das pressões militares contra a Venezuela indica que a visão de Rubio prevaleceu.


Álvaro Verzi Rangel é sociólogo e analista internacional, codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia e analista sénior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE) Artigo publicado no site do CLAE.
 

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