Quando as operações militares no mar do Caribe começaram em setembro, Trump negava ter qualquer interesse em provocar uma mudança de regime. Recentemente, numa entrevista no início de novembro à rede CBS, o tom era muito diferente. A jornalista Norah O'Donnell perguntou ao republicano: “Os dias de Maduro como presidente estão contados?”. E ele respondeu: “Eu diria que sim. Acho que sim, sim”.
Na manhã desta segunda-feira, a designação do Cartel dos Sóis como organização terrorista entrou em vigor, colocando o presidente venezuelano como seu líder, fazendo com que, de facto, Maduro seja considerado um terrorista pelos Estados Unidos. Trata-se de uma acusação que o governo da Venezuela negou repetidamente.
Há dez dias, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, anunciou o início de uma campanha militar contra o “narcoterrorismo” na América Latina, batizada de Lança do Sul. Segundo Hegseth, o objetivo é “expulsar os narcoterroristas do nosso hemisfério e proteger a nossa pátria das drogas que estão a matar o nosso povo”.
Não foram dados mais detalhes sobre o que consistia a operação Lança do Sul, além de que o Comando Sul — responsável pela área da América Central, Sul e Caribe — estaria envolvido. Em meados de outubro, o comandante do Comando Sul, o almirante da Marinha Alvin Holsey, anunciou que iria reformar-se após um ano no cargo e poucos dias após o quinto ataque a uma embarcação que partia da costa venezuelana.
Trump tem usado as designações de “terrorista” e “narcoterrorista” para ignorar o direito internacional e empreender ataques militares contra embarcações que acusava de serem barcos de narcotraficantes. Sob essa designação de “narcoterroristas”, o Pentágono assassinou mais de 80 pessoas em suas incursões no mar do Caribe e no Pacífico Oriental. No entanto, os alvos eram pessoas anónimas — familiares de pescadores que não regressaram acreditam que são os seus entes queridos e negam que fossem narcotraficantes — e não um presidente.
As tensões aumentaram desde que o governo dos Estados Unidos reconheceu como vencedor das eleições presidenciais o candidato da oposição Edmundo González, que se apresentou no lugar de Marina Corina Machado, a candidata de Washington, que, paradoxalmente, recebeu este ano o Prémio Nobel da Paz.
Nesta segunda-feira, quatro altos funcionários norte-americanos confirmaram à agência de notícias Reuters que, nos “próximos dias”, Washington pretendia iniciar a segunda fase da operação militar contra a Venezuela.
Diante das pressões dos EUA, nas últimas horas, sete companhias aéreas decidiram suspender as suas operações com a Venezuela, entre elas a Iberia, que realiza cinco voos por semana. Esta medida surge depois de a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos ter emitido um aviso contra voos sobre a Venezuela e o sul do Mar do Caribe, devido a “uma possível situação de risco”.
O analista venezuelano Leopoldo Puchi assinala que, por um lado, Washington diz estar disposta a dialogar. Por outro, deixa em aberto a opção de uma intervenção militar. Mas esta mistura não é casual. Corresponde a uma prática histórica que consiste em dialogar colocando o bastão sobre a mesa.
”Trump declara estar disposto a dialogar, mantém o destacamento naval, ativa a operação “Lança do Sul” e ordena operações especiais da CIA. Não se trata de desordem, mas da atualização de um método antigo, que permite a Washington seguir dois caminhos simultâneos: negociar a partir de uma posição de força e justificar uma intervenção” acrescenta.
Atacar Maduro diretamente é pouco provável, e uma operação especial secreta também não se coadunaria com a exibição de força que Washington recentemente demonstrou na América Latina. O mais provável é que Trump tente provocar fraturas dentro do governo venezuelano e entre os militares, o que não conseguiu em vários anos. Trump espera que Maduro fique tão desconcertado com o destacamento militar que perceba o inevitável e decida autoexilar-se para um país amigo, mas não há indícios de que ele esteja disposto a seguir essa opção.
A outra esperança do governo dos EUA é que Maduro seja derrubado a partir de dentro das fileiras militares e que alguém reivindique a recompensa de 50 milhões de dólares pela sua cabeça. Alguns analistas especularam sobre um golpe cirúrgico contra Maduro, semelhante ao ataque com drones que Trump ordenou contra o general iraniano Qasem Soleimani em 2020, no seu primeiro mandato.
A imprensa nos EUA assinala que é muito difícil ver botas estadunidenses destacadas na Venezuela, mas um ataque aéreo não é improvável. Trump acumulou experiência neste mandato com o ataque contra os houthis no Iémen no início do ano e com o bombardeamento das instalações nucleares do Irão, uma operação que levou os Estados Unidos à beira de uma guerra regional, mas que no final serviu como ferramenta de pressão ao regime dos aiatolás, além de, supostamente, retomar as conversações sobre o programa nuclear.
Não se pode descartar que Trump ordene ataques militares seletivos contra instalações da Venezuela, tendo em conta o seu escasso interesse em negociar com a Venezuela e com o governo de Maduro e, sobretudo, os interesses dos EUA em apoderar-se do petróleo venezuelano.
No início do seu governo, Trump nomeou Richard Grenell, ex-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, para trabalhar nas relações com a Venezuela. A visão de Grenell era muito mais voltada para os negócios e, de facto, ele conseguiu um acordo para que a gigante petrolífera americana Chevron pudesse continuar a operar. Enquanto isso, o secretário de Estado cubano-americano Marco Rubio aposta numa linha dura contra o regime de Maduro.
Grenell foi afastado do cargo e transferido para a direção do Kennedy Center. O endurecimento das pressões militares contra a Venezuela indica que a visão de Rubio prevaleceu.
Álvaro Verzi Rangel é sociólogo e analista internacional, codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia e analista sénior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE) Artigo publicado no site do CLAE.